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No ônibus
Oi, boa tarde. Posso me sentar aqui? Obrigado. Será que chove hoje? Acho que essa nuvem vai despencar logo, logo. Vai ser aquela correria pela rua e atropelo com sombrinhas... Você não acha?
As pessoas aqui são diferentes, né? Onde eu morava não era assim não. Está certo que lá não era as mil maravilhas, mas a coisa era diferente. Você viu aquilo? Nossa, parou em cima da faixa de pedestres, por pouco não pega aquela velhinha. Maluco, onde será que ele vai com essa pressa toda?
Dizem que lá a vida passa mais devagar, as coisas não acontecem, não há futuro... Dizem um monte de coisas. Mas, lá ninguém atropela velhinhas em faixa de pedestres. Soube que uma moça pulou de um prédio porque discutiu com o namorado. Pois é, e olha que ela tinha muito mais do que muita gente de lá onde eu morava. Talvez, se ela tivesse amigos... Por falar nisso, um amigo é muito difícil por aqui, né? Isso lá tem bastante.
Lá não tem dinheiro, não tem fama... Mas, tem carinho. Em qualquer casa que a gente vai a gente ganha chimarrão, chá, café com leite, só quando a verba chega para o leite, se não, é só café. Mas, sempre tem. Quando acaba o pão as tias fazem bolinho-de-chuva que é bem rapidinho de fazer.
Você está vendo como as pessoas caminham pela calçada em frente a essas vidraças sem se olhar nos olhos? É incrível como não se batem. Retiro o que eu disse. Elas se batem sim. Cinco minutos no ônibus e já vi três encontrões na calçada.
Lá as plantas não são assim verdes e bonitas como essas do jardim da prefeitura. Mas, acho que não é o verde da planta que mostra a sua alegria de viver. Embora fosse melhor estar em um vaso maior, ter mais água, tomar mais sol, crescer e ser visto, o que vale mesmo é estar ali e viver. Lá as pessoas, como as plantas, driblam os problemas e espremem o pacote de leite que, no fundo, sempre tem mais um pouquinho.
Aqui não, aqui parece que é feio cumprimentar as pessoas. Olha, tenho que te dizer que são poucas as pessoas dispostas a conversar assim como você. Obrigado pela conversa. Mas, agora tenho que descer, esse é o meu ponto.
- Ora o que estou fazendo? Conversando com o meu reflexo no espelho do ônibus... Acho que estou ficando louco.
Escrito por rafael wielewski às 08h36
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