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Aguaceiro

Acordei com a sensação de que meu relógio estava uma hora adiantado devido à escuridão lá fora.

 

O barulho no telhado lembrou imediatamente da última enxurrada que lavou a casa de muitas famílias aqui de Balneário Camboriú. Esse foi o primeiro pensamento. O segundo, claro, “se tiver tudo alagado não vou trabalhar hoje”.

 

Estou escrevendo do meu trabalho e a chuva não cessa. Na rádio as pessoas ligam para pedir ajuda. Suas casas estão em áreas de risco e muitas delas já estão alagadas, inclusive.

 

Enquanto remôo o sentimento de culpa e egoísmo que sinto por desejar que a cidade estivesse alagada novamente para poder ficar mais tempo na cama penso nos motivos para uma catástrofe como essa.

 

No caminho do trabalho passo por alguns terrenos baldios. O primeiro é depósito de um colchão, um armário da cozinha, ¾ de uma estante de sala, com espaço para guardar CDs inclusive, meio guarda roupa e mais umas tábuas soltas.

 

O segundo terreno é um corredor que liga duas ruas. Como os carros aprenderam a passar por ali, em dias de chuva também, criaram-se buracos que no resto do tempo armazenam água e são ótimas incubadoras para os sensíveis filhotes do aedes egypt. Mas isso não interfere nos alagamentos.

 

O próximo terreno é um depósito de entulhos de uma construção. Na calçada havia dois guarda-roupas desmontados que levei para minha casa há duas semanas e construí uma peça para mim. Com criatividade, martelo e tinta ficou tudo novo.

 

Enquanto escrevo este texto muitas famílias estão, sem dúvida, erguendo seus utensílios domésticos que compraram em 30 prestações das Casas Bahia e pagaram apenas as três primeiras. Provavelmente hoje alguém vai perder parte do que construiu em uma vida toda de trabalho. E eu aqui escrevendo...

 

Será que sou egoísta porque não vou ajudar àquelas pessoas? Na última enxurrada até carreguei carrinho de bebê com água quase pela cintura, dei orientações de trânsito, direção, tempo... Não digo que não foi importante, mas...

 

Acho que sou mesmo egoísta! Enquanto escrevo aqui dessa sala com ar condicionado, sentado em frente a um computador moderno em cima de uma mesa bonita, me dou conta de uma verdade triste.

 

Sou tão egoísta e irresponsável quanto aquelas pessoas que jogaram o lixo do outro lado da rua, no canal do rio, nos terrenos baldios, ou simplesmente deixaram seu guarda-roupas velho na calçada em frente à casa do seu vizinho.

 

Muitos dos que perderam seu móveis na última enxurrada os deixaram largados na rua para trancar a passagem de água e de pedestres também. Uma tábua em cima de um bueiro impedia o escoamento da água. De onde ela veio? Eu não sei, mas você pode adivinhar.

 

Claro que muitos bons pagam pelo erro dos outros. Mas, enquanto a chuva cai eu continuo escrevendo esse texto aqui da minha sala climatizada e seca. E enquanto você me condena por estar aqui, garanto que lê esse texto com um sentimento recíproco. “Nossa! Coitadas daquelas pessoas”.

 

Agora vou fazer o meu trabalho de todo dia. E você vai fazer o que?



Escrito por rafael wielewski às 09h32
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