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Sonho interrompido na quinta série



Escrito por rafael wielewski às 07h38
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Sonho interrompido na quinta série

Aos seis meses de gravidez dona Rose engole o almoço com a pressa que pode porque já está atrasada para a aula. A comida, uma marmita oferecida pela empresa em que trabalha, desce com dificuldade pela sua garganta. No horário em que almoça o único ingrediente de sua refeição que parece quente aos seus sentidos é a salada de tomate que desidratou e compartilhou seu vinagre com o pequeno pedaço de carne que luta por espaço ao lado do arroz branco tinto com grãos de feijão em caldo ralo.

 

Dona Rose chega na classe cinco minutos atrasada e senta em sua cadeira de costume. A aula: álgebra. Duas vezes por semana ela se dedica ao estudo para passar no concurso público da prefeitura da cidade para o cargo de servente. Ela já havia feito essa prova, mas foi cancelada por ser para servente de pedreiro e não de escola como havia se inscrito.

 

Como muitos brasileiros de classe baixa, ela não teve a oportunidade de concluir sequer o ensino fundamental. Trocou os bancos da escola na quinta-série pela necessidade de auxiliar na renda da família.

 

Terminada a aula, dona Rose pega o ônibus e desce a cinco quarteirões de casa. A barriga pesa mais a cada dia e ela se pergunta outra vez até quando vai agüentar esse ritmo. Quando chega em casa, com o dia já preparando uma bela despedida, é recebida pela filha de três anos, Jéssica. A montanha de roupas recém-lavadas promete ficar amassada se ela não lhes dedicar um carinho imediatamente. Chantagem aceita.

 

Momentos depois, sente fortes dores no abdômen e precisa ir para o hospital. O serviço de atendimento móvel de urgência (Samu) é acionado e três horas depois, com o estado de choque acautelado pelos calmantes, ela tenta compreender a guinada que a sua vida acabara de dar.

 

Dois meses antes dona Rose se distraiu cinco minutos e a filha, Jéssica, que brincava na rua em frente ao sobrado onde moram, havia sumido. Saiu do pequeno quarto de paredes mofadas e com a tinta azul bebê e desceu as escadas com a pressa que foi capaz. Viu a filha pela porta da casa de um vizinho entreaberta e não hesitou em buscá-la.

 

- Mãe, ele passou a mão em mim, disse Jéssica.

 

Dois meses depois e ela está deitada na cama do hospital tentando compreender e fazendo muita força para não aceitar a verdade. Seu bebê que já tinha quase sete meses de gestação e pelo qual muitos sonhos e projetos esperavam agora não estava mais ali.

 

O sangue de dona Rose não possui antígenos. Por isso é caracterizado como Rh-. Jéssica, sua primeira filha, nasceu com o Rh+, possuía os antígenos nas células de seu sangue, as hemácias. No momento do parto o sangue de dona Rose criou anticorpos contra aqueles antígenos. Acontece que o segundo filho veio com o Rh+ e os anticorpos de dona Rose reagiram com os antígenos do filho e a conseqüência foi fatal para o feto.

 

Essa doença se chama eritroblastose fetal e é ensinada na aula de ciências na oitava série de qualquer escola pública do país. Dona Rose, infelizmente, cursou apenas até a quinta série e não teve a oportunidade de saber disso. Essa doença pode ser facilmente detectada no acompanhamento pré-natal e uma simples injeção resolveria o problema e proporcionaria condições de vida ao novo filho.

 

Agora é tarde demais! O filho de dona Rose virou mais uma estatística que será impressa nos livros de ciências e estudado por outros alunos de oitava série que, provavelmente, não lhe darão o devido valor.



Escrito por rafael wielewski às 07h37
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