
Eu e ele (pobre de mim)
O que mais me chama atenção no Gabriel García Márquez é a sua forma simples de ver o mundo. Encarar as coisas simples simplesmente como coisas simples. Por exemplo, se 10 mil pessoas deixam de ganhar aposentadoria ficamos tristes e falamos mal do governo e dizemos “mas é assim mesmo”.
Agora, se o cara é um herói de guerra. Vive somente com a esposa em uma ilha afastada do resto do mundo e os dois já são bem velhos. Se ele tem um galo de estimação e há anos espera toda sexta-feira a lancha dos correios para saber se chegou alguma resposta do seu pedido de aposentadoria ficamos realmente frustrados e tristes por este personagem imaginário.
O Gabriel Garcia Márquez tem disso, ele meche com os nossos conceitos de certo e errado fazendo-nos ter mais pena de um personagem fictício do que das pessoas reais. Ele faz com que odiemos um velho que se declara a uma viúva no dia da morte de seu esposo em O Amor nos Tempos do Cólera. E depois faz com que lhe amemos tanto e que ao nos colocarmos no lugar daquele velho faríamos o mesmo.
O conteúdo dos seus testos extrapola o próprio texto, ele sempre diz muito mais do que há em cada linha. Ele brinca com os nossos sentimentos e mostra como somos preconceituosos e nos baseamos na nossa própria visão de mundo.
Mas, principalmente, eu admiro muito o seu texto pela simplicidade e pela dimensão. Ele não usa palavras complicadas, quando são usadas é de forma metafórica. E nem de longe ele tem um texto mais simples ou menos intelectualizado do que ninguém. Nas descrições as suas metáforas proporcionam realmente o gosto e a intensidade daquele momento. É como se sempre estivéssemos lá e fossemos parte daquela história.
Ele sempre ataca na raiz dos problemas. Ele busca o significado das coisas em vez de se limitar a superfície. Não sei se me pareço com ele nesses aspectos, mas com certeza, é nesses textos que me inspiro e inspiro seus ares adocicados de balas de iogurte.