Ontem fomos fazer uma matéria sobre a fiscalização marítima da operação verão da Capitania dos Portos. A bordo da lancha seguíamos de Itajaí em Direção a Balneário Camboriú. No pontal norte da praia, bem próximo às pedras o motor pifou. O termo técnico é engrazar. Ele não engrazava as marchas. O motor funcionava, mas o barco não andava.
Minto, andava sim. Só que em direção às pedras. Com o vento e as ondas parece que a âncora não era suficiente para aquela embarcação naquelas condições de mar. Após passar rádios e fazer algumas ligações chegaram três lanchas para nos resgatar. Uma da polícia Federal.
No mar há uma regra de ajuda à qualquer pessoa que precise de ajuda. Omissão é crime. Guinchados e rebocados nos demos conta de um item primordial na habilitação naval: o companheirismo. Saber que você não está sozinho no mar e que sua omissão pode significar o fim da vida de alguém é um dos itens que tornam a habilitação obrigatória.
Na fiscalização, um barco com extintor vencido e carta náutica desatualizada e um piloto de Jet Sky sem habilitação, no mais tudo certo. Na hora de ir pra casa, um engraçadinho fazendo manobras com Jet Sky a menos de 200 metros da faixa de areia. Outro crime, pode denunciar na Capitania dos Portos que a segurança é para todos que estão na água. Até para os peixes!
Foto: Região do Morro do Baú da editoria do Terra / Francisco de Assis
90% da cidade em baixo da água. Um número pesado, duro e amargo. As pessoas dentro de uma água cremosa com uma capinha de gordura em alguns pontos. Enquanto uns se divertem com bicicletas e bolas outros lutam para conseguir água e alimentos, condições mínimas de dignidade e sobrevivência. Mas foi isso.
A água começa a encher por baixo e dá tempo de pensar, se proteger, subir no forro da casa, qualquer coisa para ficar a salvo. Quando não há outra saída ainda dá pra remar dentro de uma geladeira, boiar com uma caixa de isopor e seguir pelas ruas alagadas da cidade até encontrar um local seguro. E seco.
Mas o morro, meu amigo. O morro vem por cima com velocidade e fúria e não há nada que o segure. Nada, quer dizer 'nada' mesmo. Quando soube do que aconteceu em Ilhota em um local chamado Morro do Baú imaginei casas estragadas e gente que gastaria um bom dinheiro para colocar tudo em ordem novamente. Seria ótimo se um pouco de dinheiro fosse capaz de devolver o que se foi ali.
Uma simpática vila entre as montanhas simplesmente desapareceu. A primeira vista, só tem terra mexida ao lado de algumas casinhas simples e aconchegantes guardadas por cachorros soltos e até um papagaio em cima da árvore cumprimenta os visitantes. Mas, em baixo do barro há casas, corpos e famílias que já não existem mais. Chegar lá, só de helicóptero. Sair também.
Cachorros treinados encontrando corpos de vizinhos soterrados, mães com os filhos no colo, gente de baixo da cama debaixo de 2 metros de terra. Bombeiros exaustos com pás contabilizam corpos retirados da lama que antes era quintal de casa. Como uma planta carnívora, o Baú se fechou e engoliu muitos dos seus moradores.
Histórias não faltam de gente que perdeu tudo. Um rapaz de '20 e poucos' anos ouviu um barulho forte e os gritos de um vizinho. Já estava preparado porque sabia que alguma coisa ia acontecer. Estava chovendo demais. Pegou a filha de 1 ano e sete meses no braço esquerdo e com a mão direita segurou a mão da esposa. Quando abriu a porta de casa para saírem só deu tempo de ver a onda de terra se aproximando com muita velocidade. Atingidos e soterrados. "Eu consegui sair dali, mas preferia não ter saído. Em menos de um minuto perdi as duas".
Aos seis meses de gravidez dona Rose engole o almoço com a pressa que pode porque já está atrasada para a aula. A comida, uma marmita oferecida pela empresa em que trabalha, desce com dificuldade pela sua garganta. No horário em que almoça o único ingrediente de sua refeição que parece quente aos seus sentidos é a salada de tomate que desidratou e compartilhou seu vinagre com o pequeno pedaço de carne que luta por espaço ao lado do arroz branco tinto com grãos de feijão em caldo ralo.
Dona Rose chega na classe cinco minutos atrasada e senta em sua cadeira de costume. A aula: álgebra. Duas vezes por semana ela se dedica ao estudo para passar no concurso público da prefeitura da cidade para o cargo de servente. Ela já havia feito essa prova, mas foi cancelada por ser para servente de pedreiro e não de escola como havia se inscrito.
Como muitos brasileiros de classe baixa, ela não teve a oportunidade de concluir sequer o ensino fundamental. Trocou os bancos da escola na quinta-série pela necessidade de auxiliar na renda da família.
Terminada a aula, dona Rose pega o ônibus e desce a cinco quarteirões de casa. A barriga pesa mais a cada dia e ela se pergunta outra vez até quando vai agüentar esse ritmo. Quando chega em casa, com o dia já preparando uma bela despedida, é recebida pela filha de três anos, Jéssica. A montanha de roupas recém-lavadas promete ficar amassada se ela não lhes dedicar um carinho imediatamente. Chantagem aceita.
Momentos depois, sente fortes dores no abdômen e precisa ir para o hospital. O serviço de atendimento móvel de urgência (Samu) é acionado e três horas depois, com o estado de choque acautelado pelos calmantes, ela tenta compreender a guinada que a sua vida acabara de dar.
Dois meses antes dona Rose se distraiu cinco minutos e a filha, Jéssica, que brincava na rua em frente ao sobrado onde moram, havia sumido. Saiu do pequeno quarto de paredes mofadas e com a tinta azul bebê e desceu as escadas com a pressa que foi capaz. Viu a filha pela porta da casa de um vizinho entreaberta e não hesitou em buscá-la.
- Mãe, ele passou a mão em mim, disse Jéssica.
Dois meses depois e ela está deitada na cama do hospital tentando compreender e fazendo muita força para não aceitar a verdade. Seu bebê que já tinha quase sete meses de gestação e pelo qual muitos sonhos e projetos esperavam agora não estava mais ali.
O sangue de dona Rose não possui antígenos. Por isso é caracterizado como Rh-. Jéssica, sua primeira filha, nasceu com o Rh+, possuía os antígenos nas células de seu sangue, as hemácias. No momento do parto o sangue de dona Rose criou anticorpos contra aqueles antígenos. Acontece que o segundo filho veio com o Rh+ e os anticorpos de dona Rose reagiram com os antígenos do filho e a conseqüência foi fatal para o feto.
Essa doença se chama eritroblastose fetal e é ensinada na aula de ciências na oitava série de qualquer escola pública do país. Dona Rose, infelizmente, cursou apenas até a quinta série e não teve a oportunidade de saber disso. Essa doença pode ser facilmente detectada no acompanhamento pré-natal e uma simples injeção resolveria o problema e proporcionaria condições de vida ao novo filho.
Agora é tarde demais! O filho de dona Rose virou mais uma estatística que será impressa nos livros de ciências e estudado por outros alunos de oitava série que, provavelmente, não lhe darão o devido valor.
Acordei com a sensação de que meu relógio estava uma hora adiantado devido à escuridão lá fora.
O barulho no telhado lembrou imediatamente da última enxurrada que lavou a casa de muitas famílias aqui de Balneário Camboriú. Esse foi o primeiro pensamento. O segundo, claro, “se tiver tudo alagado não vou trabalhar hoje”.
Estou escrevendo do meu trabalho e a chuva não cessa. Na rádio as pessoas ligam para pedir ajuda. Suas casas estão em áreas de risco e muitas delas já estão alagadas, inclusive.
Enquanto remôo o sentimento de culpa e egoísmo que sinto por desejar que a cidade estivesse alagada novamente para poder ficar mais tempo na cama penso nos motivos para uma catástrofe como essa.
No caminho do trabalho passo por alguns terrenos baldios. O primeiro é depósito de um colchão, um armário da cozinha, ¾ de uma estante de sala, com espaço para guardar CDs inclusive, meio guarda roupa e mais umas tábuas soltas.
O segundo terreno é um corredor que liga duas ruas. Como os carros aprenderam a passar por ali, em dias de chuva também, criaram-se buracos que no resto do tempo armazenam água e são ótimas incubadoras para os sensíveis filhotes do aedes egypt. Mas isso não interfere nos alagamentos.
O próximo terreno é um depósito de entulhos de uma construção. Na calçada havia dois guarda-roupas desmontados que levei para minha casa há duas semanas e construí uma peça para mim. Com criatividade, martelo e tinta ficou tudo novo.
Enquanto escrevo este texto muitas famílias estão, sem dúvida, erguendo seus utensílios domésticos que compraram em 30 prestações das Casas Bahia e pagaram apenas as três primeiras. Provavelmente hoje alguém vai perder parte do que construiu em uma vida toda de trabalho. E eu aqui escrevendo...
Será que sou egoísta porque não vou ajudar àquelas pessoas? Na última enxurrada até carreguei carrinho de bebê com água quase pela cintura, dei orientações de trânsito, direção, tempo... Não digo que não foi importante, mas...
Acho que sou mesmo egoísta! Enquanto escrevo aqui dessa sala com ar condicionado, sentado em frente a um computador moderno em cima de uma mesa bonita, me dou conta de uma verdade triste.
Sou tão egoísta e irresponsável quanto aquelas pessoas que jogaram o lixo do outro lado da rua, no canal do rio, nos terrenos baldios, ou simplesmente deixaram seu guarda-roupas velho na calçada em frente à casa do seu vizinho.
Muitos dos que perderam seu móveis na última enxurrada os deixaram largados na rua para trancar a passagem de água e de pedestres também. Uma tábua em cima de um bueiro impedia o escoamento da água. De onde ela veio? Eu não sei, mas você pode adivinhar.
Claro que muitos bons pagam pelo erro dos outros. Mas, enquanto a chuva cai eu continuo escrevendo esse texto aqui da minha sala climatizada e seca. E enquanto você me condena por estar aqui, garanto que lê esse texto com um sentimento recíproco. “Nossa! Coitadas daquelas pessoas”.
Agora vou fazer o meu trabalho de todo dia. E você vai fazer o que?